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20100928

As lições que Nanny McPhee pode ensinar ao seu filho

Por Laura Lopes
“Nanny McPhee”, com “c” minúsculo e “p” maiúsculo. É assim que a babá com cara de bruxa se apresenta. Ela aparece quando as crianças precisam de seus poderes disciplinadores, mas afastam sua presença. E vai embora quando as crianças já estão devidamente educadas, mas anseiam por sua companhia. Ela está de volta aos cinemas em Nanny McPhee e as lições mágicas, que estreou na sexta-feira passada (19).

A babá, que num primeiro momento assusta, é carregada de significados. À medida que as crianças vão aprendendo suas lições, ela fica mais bela. Depois da lição 1: ela perde as verrugas; depois da 2, a “monocelha” se separa em duas sombrancelhas bem desenhadas… E assim vai. No fim do filme, ela está mais elegante e as crianças a adoram. Parece até aquele ditado “a quem ama o feio, bonito ele parece”. É mais prudente dizer que sua mágica é ensinar amor, generosidade, companheirismo e valores aos pequenos. Do ponto de vista das crianças (e dos adultos também), é mais fácil gostar de alguém quando todas essas lições foram aprendidas.

O roteiro de Nanny McPhee e as lições mágicas começou a ser criado quando o primeiro filme – o sucesso de bilheteria Nanny McPhee – A babá encantada, lançado em 2005 – estava em produção. Emma Thompson é a protagonista e também roteirista dos dois longas. O filme de estreia foi baseado nas histórias da Babá Matilda, personagem de três obras da escritora inglesa Christianna Brand, que imortalizou em livro os contos da babá sobrenatural que escutava quando menina. Já o segundo roteiro foi de livre inspiração de Emma, ainda que preservando o espírito original das histórias de Brand.

Agora, em vez de um viúvo cheio de filhos, McPhee vai ajudar Isabel Green (Maggie Gyllenhaal), que se vê sozinha com três filhos em uma fazenda no interior da Inglaterra depois que o marido (Ewan McGregor) viajou para lutar em uma guerra – que não é citada, mas tem todo o jeito de II GM. Ela recebe a visita de dois sobrinhos que vivem em Londres, Celia e Cyril Gray, arrogantes e mimados. Os pais das duas crianças, à beira de um divórcio, resolvem afastá-los do convívio familiar. São cinco crianças de mundos completamente diferentes (fazenda versus cidade), com valores diversos (natureza versus luxo) e que não param de brigar. Sra. Green já não sabe mais o que fazer quando recebe um aviso insólito. Deve chamar pela babá McPhee. Além de leitõezinhos que praticam nado sincronizado e uma moto que voa, a babá irá surpreender as crianças com seus ensinamentos. Seu filho já sabe todas elas?

1. Parar de brigar
2. Saber compartilhar
3. Trabalhar em equipe
4. Ser corajoso
5. Ter fé

Além do óbvio caminho moral, o filme tem humor – grande parte dele envolvendo os veteranos Maggie Smith (que já ganhou Oscar de atriz coadjuvante e atriz e é presença fixa na série Harry Potter), como a Sra. Docherty, e Sam kelly, como seu marido.

Fonte: Revista Época

20100818

Não há vagas

Por Ferreira Gullar

O preço do feijão

não cabe no poema. O preço

do arroz

não cabe no poema.

Não cabem no poema o gás

a luz o telefone

a sonegação

do leite

da carne

do açúcar

do pão


O funcionário público

não cabe no poema

com seu salário de fome

sua vida fechada

em arquivos.

Como não cabe no poema

o operário

que esmerila seu dia de aço

e carvão

nas oficinas escuras


- porque o poema, senhores,

está fechado:

"não há vagas"


Só cabe no poema

o homem sem estômago

a mulher de nuvens

a fruta sem preço


O poema, senhores,

não fede

nem cheira

20100715

Gentileza gera gentileza

Ainda bem que o protesto da cantora Marisa Monte na música Gentileza, do CD Memórias, Crônicas e Declarações de Amor, lançado em 2000, é coisa do passado. Um dos trechos da canção diz: “Apagaram tudo/Pintaram tudo de cinza/A palavra no muro/Ficou coberta de tinta”. Para quem não sabe, a cantora estava se referindo aos poemas de José Datrino, popularmente conhecido como Profeta Gentileza, que foram apagados pela Companhia Municipal de Limpeza Urbana (COMLURB), do Rio de Janeiro. Durante os anos 80 até sua morte, em 1996, Gentileza colocou vida, pintou letra por letra e deixou mensagens simples de sabedoria em 56 pilastras no viaduto do Caju, que vai do cemitério do Caju até a rodoviária Novo Rio, numa extensão de, aproximadamente, 1,5 km.

Este é o profeta Gentileza que gera gentileza com amorrr e paz para um Brasil e um mundo melhor. Meus filhos não usem problemas usamos a natureza. (Frase original extraída da pilastra número três)

Ele escrevia numa altura em que suas palavras pudessem ser apreciadas pelas pessoas que passassem de ônibus pela região. Talvez sem premeditar, ao numerar as pilastras Gentileza acabou formando uma espécie de livro urbano. “Cada um dos murais não se encerra em si mesmo como um quadro isolado”, explica o amigo Leonardo Guelman, autor do Livro Univvverrsso Gentileza, (ed. Mundo das Ideias). Com o passar dos anos, os murais foram danificados por pichadores, sofreram vandalismo e o resto da história você já conhece. Felizmente, a ação da COMLURB gerou críticas e, com a ajuda da prefeitura, foi organizado o projeto Rio com Gentileza para restaurar os murais das pilastras. No início de 2000, a restauração foi concluída e o patrimônio urbano carioca preservado.

Desde o final de abril, após dez anos de desgaste, quatro artistas plásticos iniciaram uma nova restauração, a partir da pilastra número um, no km zero da Avenida Brasil. Era desse ponto que Gentileza dava as boas-vindas a quem chegasse à cidade maravilhosa. “A emoção dessa conquista é que a mensagem de Gentileza está sendo cada vez mais difundida, se espalhando pelo imaginário das pessoas”, esclarece Dado Amaral, autor de dois curtas-metragens sobre o folclórico profeta: Gentileza, em 1994, e Porr Gentileza, em 2002.

VOZES DO ALÉM

Afinal de contas, de onde surgiu esse homem que se fundiu à paisagem carioca? Datrino nasceu em 1917, na cidade de Cafelândia, no interior de São Paulo. De família humilde, trabalhava na terra e com a lida de animais. Desde menino, puxava carroça vendendo lenha nas proximidades. O campo o ensinou a amansar burros para o transporte de carga. Tempos depois, como profeta Gentileza, se dizia “amansador dos burros homens da cidade que não tinham esclarecimento”. Com 13 anos, passou a ter premonições sobre sua missão na Terra. Com 20 anos, desembarcou no Rio de Janeiro, onde se casou, teve cinco filhos e trabalhou na área de transportes de carga.

Em 1961, um episódio trágico mudou definitivamente os rumos de sua vida. Perto do Natal, um incêndio de grandes proporções destruiu o Gran Circus Norte-Americano, em Niterói (RJ), matando mais de 500 pessoas, a maioria crianças. Logo após o episódio, associando a queima do circo à metáfora do incêndio do mundo e alegando ter escutado um chamado, deixou tudo para trás e decidiu viver de e para a gentileza.
Fonte: Planeta Sustentável | Abril

20100525

Se um cachorro fosse o seu professor, você aprenderia coisas assim:


Quando alguém que você ama chega em casa, corra ao seu encontro.
Nunca perca uma oportunidade de ir passear.
Permita-se experimentar o ar fresco do vento no seu rosto.
Mostre aos outros que estão invadindo o seu território.
Tire uma sonequinha no meio do dia e espreguice antes de levantar.
Corra, pule e brinque todos os dias.
Tente se dar bem com o próximo e deixe as pessoas te tocarem.
Não morda quando um simples rosnado resolve a situação.
Em dias quentes, pare e role na grama, beba bastante líquidos e deite debaixo da sombra de uma árvore.
Quando você estiver feliz, dance e balance todo o seu corpo.
Não importa quantas vezes o outro te magoa, não se sinta
culpado...volte e faça as pazes novamente.
Aproveite o prazer de uma longa caminhada.
Se alimente com gosto e entusiasmo.
Coma só o suficiente.
Seja leal.
Nunca pretenda ser o que você não é.
E o MAIS importante de tudo....
Quando alguém estiver nervoso ou triste, fique em silêncio, fique por perto e mostre que você está ali para confortar.
A amizade verdadeira não aceita imitações!!!
E NÓS PRECISAMOS APRENDER ISTO COM UM ANIMAL QUE DIZEM SER IRRACIONAL!?!?!
Claro!!!! É porque nesses assuntos, razão até atrapalha, vale mesmo é o que se sente!
.

20100515

A sorte depende de se ter sabedoria

Para o consultor em marketing e comunicação Eloi Zanetti, existe uma certa ingenuidade que faz as pessoas acreditarem que, no final, tudo vai dar certo.
Eloi Zanetti*

Disposto a justificar as dificuldades que o seu time - superior em técnica - enfrentou para conseguir uma vitória mirrada sobre um adversário mais fraco, o técnico explicou: "Estávamos mais bem preparados, acreditávamos no nosso favoritismo e pensávamos que o jogo ia ser fácil, mas o acaso nos deu um golpe, o adversário fez um gol já no primeiro minuto e, a partir daí, as coisas se complicaram".

Na mesma hora, lembrei-me de já ter presenciado planos de negócio perfeitos no papel, mas arruinados por este tal de acaso. Em outras ocasiões, observei o contrário - situações em que todas as circunstâncias indicavam o caminho de um desfecho trágico e que, no entanto, foram salvas na última hora pelo mesmo acaso.

A história está cheia de encontros e desencontros em que o inesperado promove a grande virada. É isso que torna o futebol tão fascinante: ele escancara a possibilidade do imprevisto em nossas vidas. Expõe em praça pública nossas fragilidades perante os desígnios da sorte - ganhar ou perder o campeonato no apagar das luzes. Em futebol, o time fraquinho, pode sim, ganhar do mais forte. Tudo depende do acaso.

Para nós, humanos, existem duas situações de acasos. Há aquelas que estragam tudo, mudando rumos, destinos e até cortando os fios da vida. E há aquelas que transformam tudo para melhor. Tirando os sorteios e prêmios de loteria, o correr da existência pode trazer "inesperados felizes" e, quase sempre, a gente não os percebe. A este inesperado feliz damos o nome de serendipity. Palavra retirada de um conto do escritor Horace Walpote, que se baseou numa história persa intitulada "Os Três Príncipes de Serendipity" - aventura de três heróis em que tudo dava certo em suas viagens. É uma metáfora que nos fala da importância do acaso em nossas vidas. A sabedoria está em perceber esses momentos e tirar proveito deles. Quem não está atento não percebe seus lampejos de sorte. O acaso só favorece a mente preparada.

Fazer planos e contar com acontecimentos inesperados capazes de desviá-los do rumo não faz parte da cultura dos brasileiros, estes eternos otimistas. Uma ingenuidade atávica nos faz acreditar que tudo vai dar certo no final. Botamos fé em divindades bondosas e confiamos cegamente em governantes paternalistas. Nosso autoengano coletivo não prevê que no meio do caminho pode ter uma pedra e a gente pode "trumbicar" - obrigado Drummond, obrigado Chacrinha.

Saber lidar com a sorte é uma arte. Às vezes, é necessário ter paciência para aguardá-la; em outras, saber aproveitar os momentos em que ela se apresenta. Se o acaso lhe favorecer, prossiga com ousadia - a Deusa da Sorte adora os ousados. E, se entrar em uma maré de azar, não aja: apenas se retire e fique quieto no seu canto até a onda passar. Dominar esses fatores aleatórios é uma sabedoria. A sorte se encontra na prudência e o azar, na precipitação.

Por isso, seja qual for o plano ou projeto, devemos sempre ter em mente que o jogo só acaba quando o juiz dá o apito final. Até lá, tudo pode acontecer. Fazer planos detalhados, precisos e cientes dos resultados que almejamos é salutar. Mas colocar em nossa mente que alguma coisa pode dar errado é mais salutar ainda. Se estivermos preparados, poderemos atenuar os efeitos das viradas desnecessárias ou aproveitar a guinada de um vento a nosso favor. Oportunidade quer dizer o bom vento que leva o navio ao porto.
*Eloi Zanetti, consultor na área de marketing e comunicação, escreve mensalmente para a Revista AMANHÃ

20091126

Reflexão do dia – Caetano Veloso

“Eu não me incomodo, por exemplo, que esteja todo mundo me xingando porque eu disse que Lula fala como um analfabeto, como se fosse uma novidade. Não me incomodo que um monte de gente esteja me xingando, porque eu não quero a aprovação de todo mundo. Eu acho que querer a aprovação de todo mundo é péssimo. Isso é um problema. Eu acho ruim, no Brasil hoje, ninguém poder dizer nenhuma palavra que pareça ser antipática, crítica ou hostil a Lula. Por que não pode? É muito ruim, isso. Isso é um projeto que aconteceu na União Soviética, com Stálin, na China, com Mao Tsé-Tung, acontece ainda em Cuba, com Fidel. Não se pode dizer, só se pode adular o líder. Isso para mim é o que há de pior.”


(Caetano Veloso, em entrevista, hoje, em O Globo)