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20110214

A presidente Dilma não dá lide, nem explicações

Acho que até quem nunca foi jornalista entende o jargão, sabe o que é lide. Em todo caso, aqui vai: a palavra deriva do inglês, lead, e é a cabeça da notícia, da matéria, da reportagem, do artigo, do editorial, enfim, do que saia publicado. E destina-se a atrair a atenção do leitor para o tema.

Lula dava lides sobre os mais diversos temas nos seus dois ou três discursos diários, da permanente villegiatura pelo Brasil ou no exterior. Se não tivesse um assunto, criava-o.

Bom, pelo menos até agora, essa me parece a maior diferença entre os dois: Lula falava demais, Dilma fala de menos. Lula não gosta de que a gente aponte diferenças entre eles. Disse na festa do PT que isso é parte da tática da "desconstrução do governo Lula". Acho que não. Acho que é parte normal das análises que a imprensa, nacional ou estrangeira, sempre faz a respeito de governantes que se sucedem. Mas pouco importa o que ele diga. No que me concerne, como diria o ex-presidente Jânio Quadros - outro que falava muito, e muito bem, com rico vernáculo, mas também não fazia nada -, trabalho, sim, pela desconstrução total de Lula naquilo que posso. Nunca gostei dele, e gosto menos ainda depois de oito anos de Lulíadas.

A questão aqui não é a mera diferença de estilos parlatórios dos dois, mesmo porque, ambos falam muita besteira de improviso. Por exemplo, o slogan do primeiro pronunciamento de Dilma pela televisão: "Brasil, país rico é país sem pobreza". Bobagem. Além da tautologia rasgada, não existe nenhum país no mundo sem pobreza - até na Suécia existe pobreza -, portanto, não existiria nenhum país rico. Mas, deixemos, a lógica nunca foi o forte do PT e das suas lideranças.

O importante, na verdade, é a clareza de enunciados, propósitos e ações.

Nesse aspecto, o primeiro mês de mandato de Dilma não difere muito dos oito anos de ações de Lula, cujos enunciados, propósitos e ações eram propositalmente confusos.

A semana encerrou-se com um propósito enunciado, mas não definido, de cortes de R$ 50 bilhões no orçamento, como parte do programa fiscal para este ano. Deixemos, mais uma vez, de lado o fato de que a nova presidente, quando candidata, ironizou e repudiou a necessidade de ajuste fiscal, pois, na sua opinião, a economia ia bem e ajuste fiscal era conversa mole de economistas ortodoxos para prejudicar o povo e os pobres. Se agora o seu governo embarca num ajuste fiscal dessa magnitude, palmas para a oposição que alertava para essa necessidade nos últimos dois anos.

O problema é que, da maneira como foi anunciado, o corte orçamentário não granjeou nenhuma credibilidade, pois, para bons entendedores do mundo da economia e dos negócios, ao contrário do que se diz, meias palavras não bastam. É necessário tudo muito bem explicadinho. E praticamente nada foi explicado sobre onde serão feitos os cortes para se chegar àquela vultosa quantia, a não ser algumas dúbias referências a cortar verbas de emendas de parlamentares e algumas coisas no custeio do governo federal. Emendas parlamentares que propõem despesas, mas não criam receitas, podem ser cortadas à vontade, pois é o mesmo que cortar vento. Feitas algumas poucas contas, já se percebe que, isso tudo somado, não representaria quase nada do que se propõe.

Acresce que os mensageiros do pacote foram os ministros Guido Mantega, da Fazenda, e a ministra Miriam Belchior, do Planejamento. A presidente não se fez presente. A credibilidade do primeiro, com quem comanda a economia - analistas, investidores, empresários - compete seriamente com a dos técnicos de futebol, para dizer o mínimo. Já a ministra Belchior disse que o corte "não vai ser sem dor", mas também não explicou direitinho como e onde seria feito, e na foto do jornal Valor parecia é estar arrancando os cabelos...

Talvez tenha algum motivo para isso.

O fato é que a inflação disparou para fora da meta, e os mais otimistas creem que será possível reconduzi-la para dentro da meta só no ano que vem. Talvez, se realmente for feito um corte significativo no custeio do governo, pois é essa despesa do dia a dia que alimenta a inflação, e se for feito um corte não desprezível nos investimentos do PAC. Fora essas duas coisas, ainda há o problema do excesso de crédito, dos financiamentos a juros subsidiados, dos déficits da previdência, do câmbio supervalorizado que estimula o consumo e, last but not least, do reajuste do salário mínimo. Esse é um assunto que, parece, terá solução nesta semana. E, segundo se diz, a presidente não quis definir a questão dos cortes sem ter definido, antes, a do salário mínimo, tal a importância desse para a preservação do equilíbrio do conjunto das contas públicas. Assim, caso não consiga o reajuste do salário mínimo em R$ 545, e tiver de aceitar algo maior, como os R$ 560 que teriam sido acordados com a oposição, o jeito será aumentar os cortes no custeio e nos investimentos.

Já o plantador desses abacaxis, que a sucessora colhe agora, aproveitou o aniversário do PT para já começar a sua campanha eleitoral, exortando os companheiros a correrem para, daqui a dois anos, abocanhar muitas prefeituras, e proclamando que o sucesso de Dilma será o dele.

Jornalista

Fonte: O Estado de São Paulo







20100405

A CARA DO CARA

Teríamos que ver Lula não como o estadista que pretende ser, e sim como um espertalhão?

Devo admitir que, de algum tempo para cá, a personalidade de Lula tornou-se para mim motivo de surpresa e indagação. Trata-se, sem dúvida, de um personagem inusitado na história política do país. Contribui, para isso, obviamente, sua origem social, a condição de líder operário que, embora pouco afeito aos estudos e à leitura, chegou à mais alta posição que alguém pode alcançar no Estado brasileiro.

A trajetória que ele percorreu é, no entanto, compreensível, se se levam em conta os fatores que determinaram o processo político brasileiro durante os anos do regime militar. A repressão que a ditadura exerceu sobre os trabalhadores organizados, alijando dos sindicatos às lideranças surgidas do getulismo e do janguismo, propiciou o surgimento de uma liderança sindical, desvinculada tanto do peleguismo quanto dos comunistas que, por isso mesmo, prometia uma nova era na luta dos trabalhadores.

A figura principal desse movimento era Luiz Inácio Lula da Silva que, envolto nessa aura, fez renascer a esperança de velhos militantes incompatibilizados com o comunismo soviético, como também o entusiasmo de uma nova geração que se inspirava na Revolução Cubana. Não por acaso, Lula passou a usar a mesma barba que caracterizava as figura de Fidel e Guevara.

Enquanto durou a ditadura militar, ele e seu partido, o PT, mantiveram-se na luta pela restauração da democracia, ao lado do partido de oposição e de outras forças de esquerda. Finda a ditadura, Lula e seu grupo começaram a mostrar sua verdadeira face: tornaram-se adversários de todos os governos que se formaram, a partir de então. A própria Constituição de 1988 não contou com seu apoio, pois se negou a assiná-la.

De 1990 a 98, Lula fracassou em três tentativas de eleger-se presidente da República. Em 2002, deu um ultimato ao PT: para perder de novo, não se candidataria e, com isso, o partido abriu mão da postura radical, permitindo a Lula, inclusive, adotar como vice um empresário e comprometer-se com a política econômica de FHC, que haviam combatido ferozmente. Eleito, Lula repeliu a aliança com o PMDB e aliou-se a partidos menores, que seriam comprados com o mensalão. Quando o escândalo estourou, disse que não sabia de nada e obrigou seus auxiliares mais próximos a assumirem a culpa. Depois, os absolveu e, recentemente, afirmou que o mensalão foi fruto de uma conspiração contra seu governo. Não houve.

A coragem de fazer tal afirmação, quando a denúncia daquelas falcatruas foi feita pelo procurador-geral da República e aceita pelo Supremo Tribunal Federal, é quase inconcebível em alguém que ocupa a Presidência da República. Mas esse é o Lula que, após assumir o governo, afirmou nunca ter sido de esquerda e, enquanto abre o cofre do BNDES à grandes empresas, alia-se ao antiamericanismo de Chávez e Ahmadinejad e abraça-se a Bush, a Fidel e Sarkozy. Dá seu apoio às eleições corruptas do Irã e se nega a reconhecer o presidente legitimamente eleito de Honduras.

Mas nada chocou tanto a opinião pública, dentro e fora do Brasil, quanto sua afirmação de que é inaceitável que alguém se deixe morrer numa greve de fome. E, como se não bastasse, comparou os prisioneiros políticos, condenados por delito de opinião, aos criminosos comuns, presos por roubar ou matar. O ministro Amorim tentou defendê-lo, dizendo que Lula, por já ter feito greve de fome, estava agora fazendo uma autocrítica. Na verdade, Lula fingiu fazer greve de fome, em 1980, pois, como se sabe, comia escondido. Não se trata, pois, de autocrítica, mas da tentativa de desqualificar quem demonstrou a grandeza moral que ele não teve. Teríamos que vê-lo, não como o estadista, que pretende ser, e, sim, com um espertalhão, capaz de qualquer coisa que sirva a seus objetivos?

Seria, talvez, simples demais afirmar que sim. No entanto, como entender sua atitude, na visita recente ao Oriente Médio, quando se ofereceu, publicamente, para mediar o conflito entre judeus e palestinos, tarefa já entregue a um “quarteto” de alto nível composto pelos EUA, a comunidade europeia, a Rússia e a ONU? Como era de esperar, o oferecimento foi rejeitado pelos dois lados.

Lula certamente não contava com isso, mas, esperto como é, tampouco se julgaria capaz de resolver tão complexo problema. O que lhe interessava era posar de estadista preocupado com as grandes questões mundiais. É o mesmo cara que inaugura obras não concluídas e acha que só um retardado mental faz greve de fome para valer.

Teme a era pós-Lula.

Artigo de FERREIRA GULLAR, na Folha de S. Paulo de 28/03/10