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20110217

Redes sociais como ferramenta de protesto - parte 2 | Alcance da mensagem


Texto de MARKO PAPIC e SEAN NOONAN, da STRATFOR

"Tanto a Tunísia quanto o Egito têm assistido ao aumento do uso de redes sociais como o Facebook e o Twitter com a finalidade de auxiliar na organização, na comunicação e, sobretudo, no início de campanhas e ações de revolta civil nas ruas. O Movimento Verde iraniano em 2009 foi seguido de perto pela mídia ocidental por meio do YouTube e do Twitter, e este último ainda emprestou à revolução da Moldávia de 2009 o seu nome, a Revolução do Twitter.
Analistas internacionais _e particularmente a mídia_ estão mesmerizados pela habilidade de rastrear eventos e cobrir diversas localidades, perspectivas e demografias em tempo real. Mas uma revolução é muito mais do que vemos e ouvimos na internet: toda revolução requer organização, financiamento e apelo às massas. As mídias sociais, sem dúvida, oferecem vantagens na rápida e ampla disseminação de mensagens, mas também são vulneráveis a táticas antiprotesto do governo (leia mais sobre isso abaixo). E, embora a eficiência das ferramentas dependa da qualidade da liderança de um movimento, ser dependente de mídias sociais pode, na verdade, impedir o desenvolvimento de uma boa liderança.

O segredo de qualquer movimento de protesto é inspirar e motivar indivíduos a sair do conforto de seus lares rumo ao caos das ruas para enfrentar o governo. As mídias sociais permitem aos organizadores reunir pessoas com ideais parecidos em um mesmo movimento a um custo muito baixo, mas não levam necessariamente essas pessoas a agir. Em vez de participarem de reuniões, seminários e comícios, pessoas descomprometidas podem se unir a um grupo do Facebook ou seguir o feed de notícias do Twitter em casa, o que lhes confere alguma medida de anonimato (embora as autoridades possam facilmente rastrear um endereço de IP), mas não necessariamente as motiva a estar fisicamente nas ruas e oferecer energia a uma revolução. No final do dia, para um movimento de protesto movido por meio de mídias sociais obter sucesso, é preciso transformar membros de redes sociais em ações existentes nas ruas.

A internet permite que um grupo revolucionário espalhe amplamente não apenas a sua mensagem ideológica mas também o seu programa de treinamento e o seu plano operacional. Isso pode ser feito por e-mail, mas as mídias sociais ampliam a exposição e aceleram o crescimento de um grupo conforme redes de amigos e de seguidores compartilham a informação instantaneamente.

Vídeos do YouTube que expliquem os princípios e as táticas de um movimento permitem aos líderes transmitir informações importantes a seguidores distantes sem que seja preciso eles se deslocarem. (Em termos econômicos, isso é mais seguro e eficiente para os movimentos que se esforçam para conseguir financiamento e permanecer no anonimato, mas o nível do treinamento que podem oferecer é limitado. Algumas coisas são difíceis de aprender por vídeo, o que leva os organizadores de protestos a enfrentar os mesmos problemas que as bases jihadistas, que dependem amplamente da internet para se comunicar.) As mídias sociais também tornam mais ágeis o levante e o alastramento de ações, como um incêndio. Em vez de organizar campanhas em torno de datas fixas, movimentos de protesto podem alcançar centenas de milhares de adeptos com uma única publicação no Facebook ou um único feed de notícias no Twitter, lançando em segundos um chamado massivo à ação.

Com custos de organização e comunicação mais baixos, um movimento acaba dependendo menos de fundos externos, o que lhe dá a sensação de ser um movimento puramente nativo (sem financiadores estrangeiros) e de grande apelo. De acordo com a página de eventos do Facebook, o Movimento 6 de Abril no Egito teve cerca de 89.250 pessoas reivindicando participação em um protesto de 28 de janeiro quando, na realidade, um número bem menor de manifestantes estava presente, segundo estimativas da Stratfor. O Movimento 6 de Abril é composto por uma minoria de egípcios _ os que têm acesso à internet_, que a OpenNet Initiative estimou em agosto de 2009 ser equivalente a 15,4% da população. Embora esse número seja maior que o dos que acessam a internet na maioria dos países africanos, é menor que o dos que o fazem na maioria dos países do Oriente Médio. Taxas de inserção da internet em países como o Irã e o Qatar estão em torno de 35%, o que representa ainda uma minoria da população. Consequentemente, um movimento revolucionário bem-sucedido precisa atrair a classe média, a classe trabalhadora, os aposentados e os segmentos rurais da população, grupos que, provavelmente, não têm acesso à internet na maioria dos países em desenvolvimento. Caso contrário, um movimento poderia rapidamente se achar incapaz de controlar forças revolucionárias que ele mesmo impulsionou ou ser acusado por um regime de representar o movimento de uma facção sem representatividade. Esse pode ter sido o mesmo problema que manifestantes iranianos vivenciaram em 2009.

Organizadores de protestos devem não apenas expandir suas bases para além dos usuários de internet mas também ser capazes de atuar em brechas do governo. Após o bloqueio da internet no Egito, manifestantes conseguiram distribuir panfletos táticos impressos e usar aparelhos de fax e telefones fixos para se comunicarem. Criatividade e liderança rapidamente se tornam mais importantes do que mídias sociais quando o governo começa a usar táticas antiprotesto, que são bem desenvolvidas mesmo nos países mais fechados."

Fonte: Blog de Tec | Rodolfo Lucena






Redes sociais como ferramenta de protesto | Arma de mudança?



Muita gente vem incensando as mídias sociais como elementos revolucionários fundamentais nas rebeliões que vêm ocorrendo no norte da África. Claro que o uso de Twitter e Facebook ajuda nas mobilizações e na divulgação das reivindicações de grupos rebeldes, mas também parece evidente que o papel deles vem sendo exagerado por alguns setores.
Entrando neste debate, trago para você um texto de MARKO PAPIC e SEAN NOONAN, especialistas da STRATFOR, consultoria voltada para a área de política internacional e segurança. O trabalho é publicado com autorização expressa daquela empresa. O texto discute os usos das mídias sociais, o combate que governos e instituições fazem ao uso delas e sua importância (ou falta de) para o surgimento de lideranças.
Para facilitar a leitura, dividi a análise em quatro partes. Leia a seguir a introdução.

"Depois de completamente bloqueada por dois dias, a internet foi restaurada no Egito na semana passada. Autoridades egípcias desconectaram o último provedor de internet (ISP, na sigla em inglês) ainda em operação em 31 de janeiro em meio a crescentes protestos ao redor do país. Os outros quatro provedores do Egito _Link Egypt, Vodafone/Raya, Telecom Egypt e Etisalat Misr_ foram bloqueados em 27 de janeiro, enquanto a crise se alastrava. Analistas imediatamente reconheceram que se tratava de uma resposta à potencialidade organizacional dos sites de mídias sociais, cujo acesso público o Cairo não foi capaz de bloquear inteiramente.

O papel das mídias sociais em protestos e revoluções tem atraído a atenção da mídia nos últimos anos. O consenso atual é o de que as redes sociais são capazes de facilitar a mudança de um regime. E um pressuposto subjacente é o de que as mídias sociais dificultam a manutenção de um regime autoritário _mesmo em autocracias endurecidas como a do Irã e a de Mianmar_ e que poderiam dar início a uma nova onda de democratização ao redor do mundo. Em uma entrevista de 27 de janeiro, disponível no YouTube, o presidente dos EUA, Barack Obama, chegou a incluir as redes sociais entre as liberdades universais como a liberdade de expressão.

As mídias sociais sozinhas, no entanto, não instigam revoluções. E não são mais responsáveis pelas recentes manifestações na Tunísia e no Egito do que as fitas cassetes dos discursos do Aiatolá Ruholla Khomeini foram para a revolução de 1979 no Irã. As mídias sociais são ferramentas que permitem a grupos revolucionários baixar os custos de participação, organização, recrutamento e treinamento.

Mas, como qualquer ferramenta, elas têm pontos fracos e pontos fortes. Além disso, sua eficiência depende de como os líderes as usam e da acessibilidade que as pessoas que sabem como usá-las têm a elas."

Fonte: Blog de Tec | Rodolfo Lucena