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20110304

Sandy devassa e Dilma cozinheira

Quem convence mais? Sandy bebendo cerveja ou Dilma preparando omelete? A cantora e a presidente decidiram popularizar suas imagens. Sandy ficou loura platinada e posou com uma tulipa nos lábios, sem nenhum jeito de devassa. Dilma encarou a frigideira no programa de Ana Maria Braga e se saiu melhor do que a cantora. Marketing por marketing, a presidente foi menos polêmica e mais convincente no papel desenhado para ela: uma avó normal e afetuosa que lê romances açucarados e Dostoievsky.

“Todo mundo achava que ela era comportadinha, boa menina, dormia cedo.” Assim começa o anúncio da cerveja, com a Sandy de costas. Aí ela faz algo que certamente nunca tentara antes e precisou ensaiar bastante: destampa a garrafa com um golpe de mão no balcão. E se vira, os cílios enormes, a bochecha rosada de blush. Reconhecemos ali a moça que sempre defendeu a virgindade antes do casamento. Cervejeiros se recusam a acreditar que a cantora seja boa de copo. E seu striptease meia bomba é despido de qualquer traço de sensualidade.

Pela polêmica, a campanha é sucesso – só não sabemos se vai convencer homens e mulheres a consumir a cerveja. O jeito com que Sandy segura o copo cheio, com o dedo mindinho tenso, denunciou a incompatibilidade da moça com o líquido dourado.

A escolha da garota-propaganda rendeu piadas no Twitter. “A Sandy é tão devassa que... comeu os docinhos antes do parabéns... para causar, cortou o papel higiênico fora do picote.... tocou a campainha da Wanessa Camargo e saiu correndo!... já usou condicionador antes do xampu... A Sandy é tão devassa que uma vez comeu cereal matinal à tarde.” Como a Sandy nunca me convenceu nem como cantora nem como mulher atraente, custo a encontrar o motivo do cachê milionário. Além do mais, prefiro cerveja ruiva e preta. Não sou definitivamente o público-alvo dessa campanha.

A outra investida de imagem na semana, que exibiu a Dilma dona de casa, avó e cozinheira, me convenceu bem mais. Foi um marketing bem pensado às vésperas do Dia Internacional da Mulher, 8 de março. Não faço parte do público de programas populares ou de televisão aberta no Brasil. Jamais assisti a um Big Brother, nem por dever de profissão. Há sacrifícios impossíveis.

Dilma encarou a frigideira e se saiu melhor do que a nova garota-propaganda da cerveja

Como Dilma seria a entrevistada de Ana Maria Braga, resolvi assistir ao programa. Li críticas azedas à presidente, pela conversa de comadre numa semana em que o país discutiu volta da inflação, cortes no Orçamento e aumento nos juros.

Vi e gostei. Na cozinha, Dilma parecia menos deslocada do que Sandy no botequim. Estavam ali no programa duas mulheres que venceram uma luta contra o câncer. Não dá para achar que Dilma vai tomar café da manhã com o papagaio e Ana Maria Braga para discutir a Líbia ou a demissão de Emir Sader na Cultura ou o assédio do Paulinho da Força Sindical. Dilma chegou a falar de CPMF e das microempresas. Saúde e empreendedorismo são temas caros à mulher. Com um timbre de voz mais suave, tentou desgarrar sua imagem do ex-presidente que agora ganha R$ 200 mil por palestra autolaudatória.

O que mais me agradou em Dilma quase não repercutiu: seu apreço pela educação. “Meu pai valorizou uma coisa que todos os pais e mães devem valorizar nas crianças e jovens, o estudo. É uma forma de conhecer o mundo e ser uma pessoa melhor. Eu gostava de romances açucarados com final feliz, da Coleção das Moças, mas meu pai me dava junto um livro de Dostoievsky.” A presidente disse ter tanta paixão por livros que adora cheirar as páginas novas. “Se quiser me dar imenso prazer, me deixa numa livraria. Faço outras compras como todas as mulheres, mas amo livros.”
Após dois mandatos de um presidente que se gabava de não ler nem jornal, oito anos sendo obrigada a engolir a glamourização da ignorância e a glorificação do inculto, dá enorme alívio ouvir Dilma falar assim. Não importa que a maioria dos telespectadores nem sequer saiba quem é Dostoievsky, o autor de Crime e castigo que viveu no século XIX. Isso é detalhe.

Fonte: Revista Época | Ruth de Aquino








20110214

A presidente Dilma não dá lide, nem explicações

Acho que até quem nunca foi jornalista entende o jargão, sabe o que é lide. Em todo caso, aqui vai: a palavra deriva do inglês, lead, e é a cabeça da notícia, da matéria, da reportagem, do artigo, do editorial, enfim, do que saia publicado. E destina-se a atrair a atenção do leitor para o tema.

Lula dava lides sobre os mais diversos temas nos seus dois ou três discursos diários, da permanente villegiatura pelo Brasil ou no exterior. Se não tivesse um assunto, criava-o.

Bom, pelo menos até agora, essa me parece a maior diferença entre os dois: Lula falava demais, Dilma fala de menos. Lula não gosta de que a gente aponte diferenças entre eles. Disse na festa do PT que isso é parte da tática da "desconstrução do governo Lula". Acho que não. Acho que é parte normal das análises que a imprensa, nacional ou estrangeira, sempre faz a respeito de governantes que se sucedem. Mas pouco importa o que ele diga. No que me concerne, como diria o ex-presidente Jânio Quadros - outro que falava muito, e muito bem, com rico vernáculo, mas também não fazia nada -, trabalho, sim, pela desconstrução total de Lula naquilo que posso. Nunca gostei dele, e gosto menos ainda depois de oito anos de Lulíadas.

A questão aqui não é a mera diferença de estilos parlatórios dos dois, mesmo porque, ambos falam muita besteira de improviso. Por exemplo, o slogan do primeiro pronunciamento de Dilma pela televisão: "Brasil, país rico é país sem pobreza". Bobagem. Além da tautologia rasgada, não existe nenhum país no mundo sem pobreza - até na Suécia existe pobreza -, portanto, não existiria nenhum país rico. Mas, deixemos, a lógica nunca foi o forte do PT e das suas lideranças.

O importante, na verdade, é a clareza de enunciados, propósitos e ações.

Nesse aspecto, o primeiro mês de mandato de Dilma não difere muito dos oito anos de ações de Lula, cujos enunciados, propósitos e ações eram propositalmente confusos.

A semana encerrou-se com um propósito enunciado, mas não definido, de cortes de R$ 50 bilhões no orçamento, como parte do programa fiscal para este ano. Deixemos, mais uma vez, de lado o fato de que a nova presidente, quando candidata, ironizou e repudiou a necessidade de ajuste fiscal, pois, na sua opinião, a economia ia bem e ajuste fiscal era conversa mole de economistas ortodoxos para prejudicar o povo e os pobres. Se agora o seu governo embarca num ajuste fiscal dessa magnitude, palmas para a oposição que alertava para essa necessidade nos últimos dois anos.

O problema é que, da maneira como foi anunciado, o corte orçamentário não granjeou nenhuma credibilidade, pois, para bons entendedores do mundo da economia e dos negócios, ao contrário do que se diz, meias palavras não bastam. É necessário tudo muito bem explicadinho. E praticamente nada foi explicado sobre onde serão feitos os cortes para se chegar àquela vultosa quantia, a não ser algumas dúbias referências a cortar verbas de emendas de parlamentares e algumas coisas no custeio do governo federal. Emendas parlamentares que propõem despesas, mas não criam receitas, podem ser cortadas à vontade, pois é o mesmo que cortar vento. Feitas algumas poucas contas, já se percebe que, isso tudo somado, não representaria quase nada do que se propõe.

Acresce que os mensageiros do pacote foram os ministros Guido Mantega, da Fazenda, e a ministra Miriam Belchior, do Planejamento. A presidente não se fez presente. A credibilidade do primeiro, com quem comanda a economia - analistas, investidores, empresários - compete seriamente com a dos técnicos de futebol, para dizer o mínimo. Já a ministra Belchior disse que o corte "não vai ser sem dor", mas também não explicou direitinho como e onde seria feito, e na foto do jornal Valor parecia é estar arrancando os cabelos...

Talvez tenha algum motivo para isso.

O fato é que a inflação disparou para fora da meta, e os mais otimistas creem que será possível reconduzi-la para dentro da meta só no ano que vem. Talvez, se realmente for feito um corte significativo no custeio do governo, pois é essa despesa do dia a dia que alimenta a inflação, e se for feito um corte não desprezível nos investimentos do PAC. Fora essas duas coisas, ainda há o problema do excesso de crédito, dos financiamentos a juros subsidiados, dos déficits da previdência, do câmbio supervalorizado que estimula o consumo e, last but not least, do reajuste do salário mínimo. Esse é um assunto que, parece, terá solução nesta semana. E, segundo se diz, a presidente não quis definir a questão dos cortes sem ter definido, antes, a do salário mínimo, tal a importância desse para a preservação do equilíbrio do conjunto das contas públicas. Assim, caso não consiga o reajuste do salário mínimo em R$ 545, e tiver de aceitar algo maior, como os R$ 560 que teriam sido acordados com a oposição, o jeito será aumentar os cortes no custeio e nos investimentos.

Já o plantador desses abacaxis, que a sucessora colhe agora, aproveitou o aniversário do PT para já começar a sua campanha eleitoral, exortando os companheiros a correrem para, daqui a dois anos, abocanhar muitas prefeituras, e proclamando que o sucesso de Dilma será o dele.

Jornalista

Fonte: O Estado de São Paulo