20100514

Cuidado! A água pode começar a ferver

Citando a parábola do sapo na panela, consultor faz uma reflexão entre a ascensão e decadência das empresas de internet.


Por Maurício de Almeida Prado

Em uma entrevista publicada na Advertising Age, Bob Mcdonald, o novo CEO Mundial da multinacional Procter & Gamble, declarou que o que lhe tira o sono é a parábola do sapo na panela. Para quem não conhece, diz a parábola que, se tentarmos colocar um sapo em uma panela com água fervente, ele pulará para fora e não morrerá. No entanto, se colocarmos o sapo em uma panela com água fria e, posteriormente, começarmos a aquecer a água, o sapo não notará o aumento de temperatura e acabará morrendo.

Esta metáfora é bastante usada no mundo corporativo para mostrar que o que “mata” as empresas não são as mudanças bruscas na economia ou no cenário competitivo, mas sim as mudanças lentas, ou seja, aquelas não percebidas pelos lideres das empresas e que, pouco a pouco, acabam com a competitividade das companhias, levando muitas delas à extinção.

Na entrevista, McDonald lembrou que, das 50 maiores empresas dos EUA listadas na Fortune em 1955, apenas nove ainda permanecem no ranking – e a Procter & Gamble é uma das gloriosas sobreviventes. Isto significa que apenas 18% das maiores empresas norte-americanas conseguiram acompanhar as mudanças das últimas décadas e permaneceram em posição de destaque nestes últimos 55 anos. Mesmo fazendo parte da maior economia do mundo, 41 das grandes companhias não perceberam o aquecimento da água e praticamente morreram.

Essa história me fez lembrar do período de glória das locadoras de vídeo em São Paulo. O negócio parecia muito promissor e vários empreendedores ingressaram neste segmento. Eu, por exemplo, freqüentava uma locadora no bairro onde morava que sempre estava cheia de clientes e admirava o sucesso e os possíveis lucros de seu feliz proprietário. Foi quando uma empresa mais audaciosa, a Hobby Video, começou a dominar a capital paulista e, em pouco tempo, acabou com aquela pequena loja de bairro. A Hobby Video tinha a receita da solidez: uma marca forte, poder de barganha com as produtoras de cinema e os melhores pontos da cidade. Era imbatível.

Mas, quando se pensava que tudo corria seu fluxo normal, desembarcou na cidade a gigante multinacional Blockbuster. Em pouco tempo, a empresa dominou o mercado e acabou com aquela empresa que, até aquele momento, parecia ser a mais sólida e imbatível do setor. Nós, consumidores perplexos, assistimos a rápida ascensão e hegemonia da Blockbuster – com lojas padronizadas e cores fortes.

Com uma multinacional na liderança do mercado, poderíamos ficar “sossegados”. Imaginávamos que nada acabaria com gigantesco império e nunca mais teríamos que fazer uma carteirinha em qualquer outra locadora de vídeo. Estávamos seguros que aquele modelo havia chegado para ficar. Ledo engano! Vieram então as novas tecnologias que permitem fazer downloads pela internet e, juntamente, com as TVs digitais reduziram a Blockbuster a uma singela prateleira no fundo das Lojas Americanas.

Este exemplo reforça a frase de Karl Marx que “tudo que é sólido desmancha no ar”, também titulo do livro do filósofo Marshall Berman, que busca explicar o modernismo e seu processo de destruição criativa. E, olha que nesta época ainda não havia internet!

Se o ritmo das mudanças nos negócios é cada vez mais rápido, na era da informação, ele é alucinante. O Facebook já roubou muitos usuários do Orkut, que parecia dominar as redes de relacionamento. Outro exemplo? Como ficará o Apontador, que é um guia de mapas, com a disseminação do Google Maps? Apesar de a internet ser um meio em que fortunas são criadas, também é um lugar onde fortunas evaporam em instantes.

Poucos se lembram do primeiro buscador de sucesso, o Lycos, logo substituído pelo Altavista Em pouco tempo, a liderança ganhou outro personagem: o Yahoo, que também tomaria proporções inimagináveis, até ser engolido pelo Google.  Hoje, muitos acreditam ser impensável que outra empresa seja capaz de ultrapassar o Google.

No entanto, assim como em todos os outros segmentos, o futuro dependerá da capacidade dos líderes de identificar e perceber as mudanças lentas que, pouco a pouco, podem acabar com a competitividade das companhias. Se continuarem acreditando no imutável e na estabilidade, certamente a água voltará a ferver.
Fonte: HSM Online

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